O que os CEOs precisam ouvir mas ninguém tem coragem de dizer
O que é ser sincero, honesto nas opiniões?
Por que as pessoas se escondem atrás da febre americana do “politicamente correto”?
Os rostos estão cada dia mais sem expressão, não há mais aquele brilho no olhar! Não há mais entusiasmo nas ações. O mundo corporativo padronizou os seres humanos, independente de sexo, idade ou credo.
Há 20 anos, quando alguém apresentava um projeto, a pessoa vibrava, demonstrava prazer ao falar sobre como desenvolveu seu projeto, de onde tinha surgido a idéia, tinha força na voz, sentimento, coração, orgulho. Sim, falava-se de números, prospecção de mercado, planos a médio e longo prazo, resultados esperados, riscos mensuráveis etc., mas falava-se principalmente da realização de um sonho, um projeto não nasce ali na sala de reuniões e sim da expectativa e perspectiva de mudança, de inovação, de implementação de idéias visando o sucesso da empresa! O projeto era como um filho para seu idealizador.
E quem era o idealizador além de alguém que tinha tido uma grande idéia? Era aquele alguém que tinha comprometimento com a empresa, seu emprego e o negócio em si!! Alguém que “pensava” na empresa como se fosse sua! Foi aquela senhora que servia cafézinho durante uma reunião na qual os gestores discutiam sobre as baixas vendas da pasta de dentes e o endurecimento do produto na saída da embalagem, e de repente, aquela senhorinha simples pensou alto e disse: ué, alarga a boca do tubo!
Ou aquela vendedora porta-a-porta que chamava suas “freguesas” pelo nome! Que conhecia os produtos que cada um da nossa familia gostava. Ninguém sabia o significado de “consultora de beleza”!!! Minha Tia Odete construiu uma casa e estudou 5 filhos vendendo Avon !!! Com muito orgulho, oras sim senhor!!!
O que eu vejo hoje?
Vejo jovens graduados pelas melhores universidades do mundo, pós-graduados, especializados, com mestrados e doutorados e MBAs nas maiores e mais renovadas entidades!
Empertigados em seus Armanis e Guccis, ornamentados e paramentados com laptops e data-shows de última geração, apresentam (em inglês, acompanhados de tradutores simultaneos para 198 idiomas), seus projetos mirabolantes, baseados em benchmarks e pesquisas (realizadas por empresas americanas especializadas terceirizadas), prometendo um super faturamento (em dolar, claro) através da venda de produtos, com x% de insumos importados (da China, claro), que serão montados por robôs, reduzindo a hora/homem x produtividade xyz, resultando em um “profit” de 3.800% sobre o mesmo período do ano anterior.
E aí fala-se da performance do sujeito, do quanto profitable ele é, e do quanto o budget será reduzido com o proposto righsizing e reengineering. Diz-se que ele provavelmente será o novo CEO da empresa antes dos 35 anos e bla bla. Jesus Cristo, onde eu estou morando?
Oras valha-me Deus!!! Sou ultra a favor da tecnologia, especialização, benchmarks etc, porém por favor, levante a bundinha cheirosinha da cadeira e cai na real! Fale em bom português com seus colegas, vá ao chão de fábrica, ouça os funcionários, vá ao campo, ouça a opinião do público sobre a empresa e seus produtos! Ouça os seus subordinados!! Eles sabem falar!! ah, e eles pensam também!!!! Humanize-se! Use todo o preparo tão disponível hoje em dia para verdadeiramente criar alguma coisa que preste!!! Nunca tivemos tantas reclamações de consumidores por baixa qualidade nos produtos, mal atendimento, péssima prestação de serviço, assédio moral, altíssima rotatividade (o famoso turn over), reclamações trabalhistas dentre tantas outras situações.
Os últimos 50 anos produziram a maior mudança e evolução que o mundo já teve, e ao mesmo tempo somos obrigados a conviver com os ditos “CEOs e managers” arrogantes e prepotentes, míopes para o óbvio e visionários para o impossível.
Eu olho para seus rostos e não vejo sentimento, não vejo brilho, não vejo empolgação, entusiasmo, amor pela empresa, por seus produtos e por seus colegas! Vejo rostos de cera, sorrisos armados, cara de paisagem. Vejo-os como alpinistas, como caranguejos escalando as costas dos colegas para subir mais rápido, e deixar aquela empresa por outra melhor, e outra e outra.
Onde estão os Josés Mindlins, os Antonios Ermirio de Moraes, dentre tantos homens brilhantes os quais aprendi a respeitar, a admirar?
Quantas faculdades e especializações e MBAs a dona Maria precisa ter para me vender aquele baton que eu uso há anos?? Não!!! Agora a dona Maria me envia um link por email para eu escolher o que eu quero! Ela não sabe quem sou ou onde moro, porque a empesa envia o produto que eu comprei online, via Submarino ou eu compro no amazon.com! E se quando o moto-boy chegar, eu não estiver, dancei meus caros, o produto é devolvido!
Fosse hoje, se a senhorinha do café abrisse a boca, seria sumariamente demitida e sua idéia ridicularizada, pois afinal, não foi feito benchmark, a idéia não veio de um ex-aluno de Harvard, que fala 90 idiomas! Onde já se viu a “tia do café” ousar abrir a boca aqui no Olimpo?!
E na vida fora da empresa (se é que há vida out there), eu não quero mais ver meu sobrinho sentado na frente do computador 18 horas por dia!! Eu quero vê-lo arranhando o joelho ao cair do carrinho de rolimã!! Eu quero vê-lo desmontando e remontando um brinquedo, fazendo lição à lapis no caderno de caligrafia. Quero vê-lo brigando com o filho do vizinho por uma bola ou por um chute roubado à Gol!
Caramba!! Só tenho quase 50 e estou tão indignada! E quando tiver 80? Em que mundo viverei?? Que mundo é esse que estou ajudando a construir para meus futuros netos?? Um mundo no qual algumas poucas pessoas preocupam-se com o meio-ambiente, mas… meio-ambiente para quem? Para que tipo de animal racional? Quem está preocupado com o ser humano que estamos criando para o futuro?
Pára! Pára tudo que eu quero descerrrrrrr! Eu quero reinventar!! Eu quero retransformar!!!
Marcia Losovoi
Comentarista do Site

